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AEGL, ERPG e IDLH: qual número dispara a evacuação — e por que citar o errado inverte a decisão

As três siglas aparecem em plano de emergência brasileiro sem que quase ninguém explique o que cada uma significa. Elas foram criadas para perguntas diferentes: uma protege o trabalhador que precisa sair, outra a comunidade que vai ficar exposta por uma hora, outra a população geral em oito horas. Usar o número certo muda o raio de isolamento em ordens de grandeza.

Três siglas, três perguntas diferentes

Plano de emergência brasileiro cita AEGL, ERPG e IDLH com frequência — e quase sempre como se fossem sinônimos de "limite perigoso". Não são. Cada um responde a uma pergunta distinta, e é a pergunta que determina qual serve para a decisão que você está tomando.

IDLH — *Immediately Dangerous to Life or Health*. Pergunta: até que concentração um trabalhador consegue escapar sem dano irreversível se o respirador falhar? É um valor de fuga, referenciado a 30 minutos, criado para seleção de proteção respiratória ocupacional. Não foi feito para decidir evacuação de comunidade.

ERPG — *Emergency Response Planning Guidelines*. Pergunta: a que concentração a população em geral pode ser exposta por uma hora sem determinado grau de efeito? Feito para planejamento de emergência ao redor de instalações.

AEGL — *Acute Exposure Guideline Levels*. Mesma família do ERPG, mas com cinco janelas de tempo — 10 minutos, 30 minutos, 1 hora, 4 horas e 8 horas — e cobrindo população geral, incluindo suscetíveis. É o mais granular dos três.

Os três níveis de gravidade

Tanto AEGL quanto ERPG usam três degraus, e a lógica é a mesma nos dois:

  1. Nível 1 — desconforto perceptível, irritação, efeitos transitórios e reversíveis que cessam com o fim da exposição. É o limiar de incômodo, não de dano.
  2. Nível 2 — efeitos sérios e duradouros, ou comprometimento da capacidade de fugir. Este é o número operacional: acima dele, a pessoa pode não conseguir sair sozinha.
  3. Nível 3 — risco de ameaça à vida ou morte.
  4. A leitura que importa para a decisão: o nível 2 é o que costuma definir a zona de evacuação, porque marca onde a exposição deixa de ser incômodo e passa a comprometer a própria fuga. Nível 1 define abrigo e aviso; nível 3 define a zona onde ninguém entra sem proteção adequada.

O erro que inverte a decisão

O erro mais caro é usar IDLH para decidir evacuação de população. O IDLH pressupõe um trabalhador adulto, saudável, treinado, ciente do risco e ativamente saindo do local em até 30 minutos. Nada disso descreve o morador de um bairro — que pode ser idoso, criança, asmático, estar dormindo, ou não saber que precisa sair.

Como o IDLH é numericamente muito mais alto que o AEGL-2 de mesma janela para a maioria das substâncias, usá-lo como gatilho subdimensiona a zona de proteção — às vezes por uma ordem de grandeza. O plano fica com raio pequeno, tecnicamente justificado por um número que responde a outra pergunta.

O erro inverso também existe e custa caro de outro jeito: usar AEGL-1 como gatilho de evacuação produz zonas enormes, evacuação desnecessária de milhares de pessoas, trânsito, pânico e perda de credibilidade para a próxima vez. Evacuação não é gratuita — tem morbidade própria, especialmente em hospital, asilo e escola.

Regra de bolso defensável: IDLH orienta proteção respiratória da equipe; AEGL/ERPG-2 orienta a decisão sobre a população; AEGL-1 orienta aviso e abrigo no local.

Janela de tempo: o parâmetro que ninguém informa

AEGL só existe com janela de tempo colada. "O AEGL-2 da amônia" é uma frase incompleta — o valor de 10 minutos e o de 8 horas são bem diferentes, e a diferença é exatamente o que se está decidindo.

Isso importa porque a duração da liberação é uma variável de comando: um vazamento contido em 10 minutos e um vazamento que dura 8 horas exigem decisões diferentes para a mesma concentração. Se o plano cita AEGL sem janela, ele não é aplicável — é decorativo.

Regra: no plano e no relatório, sempre escreva o par completo — nível e janela. AEGL-2 (60 min), AEGL-3 (10 min). Quem lê depois precisa saber a que pergunta aquele número responde.

Como isso entra na modelagem

Esses valores são o critério de corte de qualquer modelagem de dispersão. O modelo calcula concentração em função da distância; o AEGL ou ERPG diz onde traçar a linha.

Trocar o critério muda o mapa sem mudar nada da física: mesma nuvem, mesmo vento, mesma taxa de liberação — zona de proteção completamente diferente. É por isso que relatório de modelagem sem o critério declarado não é auditável.

E há um limite que precisa acompanhar o número: esses valores são de exposição por inalação, para pessoa exposta. Não dizem nada sobre contato dérmico, sobre inflamabilidade nem sobre risco de explosão — uma nuvem pode estar abaixo do AEGL-2 e ainda assim dentro do limite inferior de explosividade, que é outra decisão inteiramente.

As fichas por número ONU da Biblioteca trazem os limites de exposição da referência ocupacional para cada substância, e a Emergência PP funciona offline para consulta na ocorrência.

Aprofundamento para órgãos de defesa

Critério de exposição é o que transforma medição em decisão — e é onde a resposta a produto perigoso industrial e a resposta a incidente QBRN usam a mesma régua, com pesos diferentes: no cenário intencional, a suposição sobre duração e sobre suscetíveis muda.

A área restrita QBRN reúne o material sobre agentes químicos industriais agrupados por comportamento de dano e o marco normativo brasileiro por eixo. Acesso concedido a órgãos de defesa, segurança pública e resposta a emergências. Solicite acesso ou entre na área restrita.