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BLEVE: a explosão que não é química — o fenômeno, os sinais de que vai acontecer e a tabela do ERG que dimensiona a fuga

Quando um tanque de gás liquefeito falha sob fogo, não é o produto que explode — é a física: o líquido superaquecido vira vapor de uma vez e rasga o vaso. O Brasil conheceu o fenômeno em 1972, quando um pedaço de esfera da REDUC voou um quilômetro. Explicamos o BLEVE do mecanismo aos sinais precursores, e trazemos a tabela oficial do ERG 2024: para cada tamanho de tanque, o tempo de falha, o raio da bola de fogo, as distâncias de evacuação e a água necessária pra impedir tudo isso.

A explosão que não é química

BLEVE — *Boiling Liquid Expanding Vapor Explosion*, explosão por expansão de vapor de líquido em ebulição — é um fenômeno físico, não uma reação química. Gás liquefeito sob pressão (GLP — Gás Liquefeito de Petróleo, UN 1075, e a família: propano UN 1978, butano UN 1011) vive num equilíbrio artificial: dentro do tanque, o líquido está MUITO acima do seu ponto de ebulição à pressão atmosférica — o propano ferve a -42 °C. Se o vaso falha catastroficamente, a pressão some num instante, e toda a massa líquida superaquecida ferve DE UMA VEZ. A expansão rasga o tanque em pedaços e arremessa os fragmentos a distâncias que já mataram gente a centenas de metros.

Detalhe que surpreende: BLEVE não exige produto inflamável — água de caldeira, nitrogênio líquido e CO2 podem sofrer o fenômeno; o caso fundador do termo, em 1957, envolvia uma mistura que nem queimava. O que o inflamável acrescenta é o segundo ato: a nuvem liberada acende na hora e vira a bola de fogo — e aí somam-se os quatro perigos que o ERG lista: o fogo, a radiação térmica (a 4 raios da bola, o calor queima pele exposta em 2 segundos), a onda de pressão e os projéteis — que o próprio guia lembra: são o perigo de maior alcance, e já foram mortais.

Por que acontece — e por que a válvula de alívio não salva

O mecanismo clássico é a chama batendo no espaço de vapor do tanque. Onde há líquido por dentro, o metal é refrigerado por ele; onde só há vapor — o topo do tanque — o metal aquece sem proteção, amolece e perde resistência. No BLEVE de Feyzin (França, 1966), a perícia metalúrgica encontrou a marca: o aço da zona de vapor tinha chegado a ~800 °C. O tanque não falha porque a pressão venceu o projeto — falha porque o FOGO venceu o metal.

Por isso a válvula de alívio não impede o BLEVE: ela controla pressão, não devolve resistência ao aço enfraquecido. A NFPA (National Fire Protection Association) é literal no alerta: não assuma que a válvula operando previne o fenômeno. Feyzin provou da pior forma — a válvula da esfera 443 abriu, queimou em tocha, e a esfera explodiu na sequência mesmo assim, porque o sistema fixo de resfriamento nunca foi acionado: o controle ficou inacessível pelo calor. O que impede BLEVE é água resfriando o metal (a tabela abaixo diz quanta) ou distância.

Os sinais de que vai acontecer

O guia 115 do ERG treina a retirada imediata em uma frase: som crescente dos dispositivos de alívio ou descoloração do tanque = recue já. A lista completa que os bombeiros aprendem:

  1. A válvula de alívio muda de voz — o rugido aumenta e o tom sobe: pressão interna subindo. Chama de alívio se afastando do bocal = mais pressão ainda.
  2. Chama impingindo no espaço de vapor — o cenário clássico. Tanque com chama direta no casco é tanque de que se recua SEMPRE (instrução literal do guia 115).
  3. Pintura descolorindo, empolando ou descascando perto da chama — o metal está cozinhando.
  4. Ruídos metálicos — estalos e 'pings' do aço trabalhando.
  5. E a lição de Albert City (Iowa, 1998): o treinamento mandava ficar nos flancos, longe das extremidades — o tanque explodiu e lançou fragmentos em todas as direções, matando 2 bombeiros. Os flancos reduzem o risco; não o eliminam. A única proteção completa é a distância da tabela.

A tabela do ERG 2024: cada tanque, sua fuga

Capacidade (L)Propano (kg)Falha mín. sob fogo (min)Esvaziamento pela válvula (min)Bola de fogo: raio (m)Resposta de emergência (m)Evacuação mínima (m)Evacuação recomendada (m)Água de resfriamento (L/min)
1004048109015430797
4001604121690244488195
2.00080051828111417834435
4.0001.600520351405251.050615
8.0003.200622441766611.323870
22.0008.800728622479261.8521.443
42.00016.600732773061.1492.2001.994
82.00032.800840963831.4352.2002.786
140.00056.0009451144571.7152.2003.640
Tabela BLEVE do ERG 2024 (seção 'BLEVE — Precauções de Segurança', pp. 355-357 da edição em espanhol; publicação PHMSA/DOT, domínio público). USE COM PRECAUÇÃO: valores aproximados — o próprio guia adverte: nunca arrisque a vida com base nesses tempos.

É a tabela mais objetiva do Guia de Resposta a Emergências — e uma das menos conhecidas no Brasil. Para cada capacidade de tanque de GLP, ela dá os tempos típicos de falha e esvaziamento sob fogo, o raio da bola de fogo, as três distâncias que importam e a vazão de água pra resfriar o casco. Da botija industrial ao vagão-tanque:

Como ler a tabela (as letras miúdas que salvam)

  1. Os tempos assumem o melhor caso: contato direto de fogo na fase de vapor de um tanque EM BOM ESTADO. Tanque amassado, corroído ou danificado no acidente falha ANTES — e tanques de GLP já sofreram BLEVE em minutos.
  2. Fogo parcial = mais tempo de esvaziamento: tanque 50% envolvido pelo fogo demora o dobro pra esvaziar pela válvula. Barreira térmica ou spray d'água reduz a entrada de calor por fator 10 — o tanque ganha 10 vezes mais tempo. É a matemática que justifica cada litro de água de resfriamento.
  3. As duas distâncias de evacuação: a mínima assume fragmento saindo rasante; a recomendada assume lançamento a 45° — com margem. Note que acima de 42 mil litros a recomendada trava em 2.200 m: mais de 2 km, além da regra genérica de 1.600 m do guia 115 que registramos no quadro de ações por classe.
  4. Projéteis preferem as pontas: os fragmentos de maior alcance tendem a sair nas zonas de 45° de cada lado das EXTREMIDADES do tanque — posicione-se pelos flancos, protegido, lembrando de Albert City: preferência estatística não é garantia.
  5. A fórmula da água: 5 × raiz quadrada da capacidade em galões = galões/minuto pra resfriar o metal. Do guia 115, as regras de sempre: distância máxima ou canhão não tripulado, inundar até muito depois de o fogo apagar, e nunca água na fonte do vazamento ou na válvula (congela).
  6. Bônus da mesma seção do ERG — a RIC (Rotura Induzida por Calor): tanque SEM pressão com líquido inflamável também rasga sob fogo intenso — a fenda abre no espaço de vapor, com bola de fogo e onda de calor, menos projéteis. Já ocorreu de 20 minutos a 10 HORAS depois do incêndio começar. Tempo não é aliado em tanque nenhum.

Os casos que escreveram a doutrina

  1. REDUC, Duque de Caxias (RJ), 30/03/1972 — o BLEVE brasileiro: vazamento numa esfera de GLP durante drenagem (a válvula congelou aberta — o mesmo mecanismo físico que trava válvula de cloro), três explosões na madrugada, fragmento de esfera de 25 m arremessado a MAIS DE UM QUILÔMETRO, caindo em Campos Elíseos. As fontes divergem no número: entre 38 e 42 mortos — divergência que registramos como ela é. É o acidente industrial que o setor brasileiro não pode esquecer.
  2. Feyzin, França, 04/01/1966: drenagem em ordem errada de válvulas, nuvem acesa por um carro na rodovia vizinha, esfera em BLEVE com bola de fogo de 250 m. 18 mortos, 11 deles bombeiros — todos a menos de 50 m da esfera morreram, salvo dois. Nasceu ali a doutrina moderna de distância.
  3. Kingman, Arizona, 05/07/1973: vagão de propano em transferência, ignição por estática, BLEVE ~20 minutos depois — 13 mortos, 11 bombeiros. Caso de treinamento clássico nos EUA até hoje.
  4. Crescent City, Illinois, 21/06/1970: descarrilamento com 10 vagões de propano, série de BLEVEs, vagão voando 500 m — e zero mortos: a cidade evacuou a tempo. A prova de que a tabela acima, aplicada, funciona.
  5. San Juan Ixhuatepec, México, 19/11/1984: o pior da história — cadeia de BLEVEs num terminal de GLP colado em área residencial, 8 explosões registradas em sismômetro, 500 a 600 mortos (estimativas não oficiais chegam a 2.000). A lição urbana: distância de tanque grande é política pública, não só tática de bombeiro.
  6. E o aviso de método: a explosão da carreta de GLP na Dutra em Barra Mansa (abril/2026, 5 mortos) ainda NÃO tem classificação pericial de BLEVE — tratamos como explosão de caminhão-tanque em investigação, porque rigor com o termo também é segurança.

Por que isso importa no Brasil de 131 milhões de botijões

O GLP está em 91% dos lares brasileiros — são 131 milhões de botijões P13 em circulação, 33 milhões vendidos por mês, 7,6 milhões de toneladas por ano rodando de caminhão por 100% dos municípios (dados Sindigás/ANP 2025). Cada rota dessas carrega o fenômeno desta matéria em potencial — e a diferença entre a REDUC e Crescent City é preparo: o primeiro no local que reconhece os sinais e recua, o respondedor técnico que dimensiona a água, e a evacuação dimensionada pela tabela — não pelo achismo.

Para a parede do quartel e da expedição: baixe o Quadro BLEVE — a tabela do ERG em uma página (PDF A4 gratuito). E a consulta por produto, na emergência, está na Emergência PP — que funciona sem sinal de celular.