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ONU 3480 × ONU 3090: a bateria que aceita água e a que não aceita — e por que confundir é fatal

Duas cargas de bateria, dois números ONU vizinhos, duas táticas opostas. Íon-lítio (ONU 3480) se combate com água em volume; lítio metálico (ONU 3090) reage com água. A distinção não circula em português e decide o primeiro minuto do combate. Somam-se aqui o volume real de água necessário, a reignição que volta horas depois e o efluente com ácido fluorídrico que ninguém contém.

Dois números vizinhos, duas químicas opostas

Na relação de produtos perigosos, os números caem perto um do outro e o nome no documento é parecido. Na cena, a diferença é de tática:

ONU 3480 — baterias de íon-lítio. É o que está em celular, notebook, ferramenta, patinete e veículo elétrico. O lítio aqui está em forma iônica, dentro do eletrólito — não há lítio metálico livre. A água combate esse incêndio.

ONU 3090 — baterias de lítio metálico. Pilha não recarregável, de relógio, marca-passo, sensor, equipamento militar e industrial. Tem lítio metálico, que reage com água liberando hidrogênio. Água em quantidade insuficiente sobre lítio metálico exposto alimenta o problema em vez de resolvê-lo.

Existem ainda os pares 3481 e 3091 — as mesmas químicas, mas contidas em equipamento ou embaladas com equipamento. A tática segue a do número-base correspondente.

Por que a água funciona no íon-lítio

A intuição de muita gente é que "lítio não pode água". Para o íon-lítio, isso está errado, e o motivo importa.

O que mata numa célula de íon-lítio é a fuga térmica (*thermal runaway*): uma célula aquece, decompõe o eletrólito, gera gás e calor, e esse calor dispara a célula vizinha — uma reação em cadeia dentro do pacote. O incêndio não é sustentado por lítio metálico queimando; é sustentado por calor propagando entre células.

Água combate exatamente isso. Ela não apaga a célula que já disparou — ela resfria as células que ainda não dispararam e interrompe a cadeia. É por isso que o agente é água, em volume, e por tempo longo. Extintor portátil não tem massa térmica para isso: apaga a chama visível e devolve o pacote à fuga térmica minutos depois.

Nas baterias de lítio metálico, ao contrário, há metal reativo. Aí a estratégia muda para contenção, isolamento e proteção de exposições, com agente adequado a metal combustível — e a água, se usada, obedece a decisão consciente de quem comanda, não a reflexo.

O volume que ninguém dimensiona

Combater íon-lítio com água exige um volume que surpreende quem nunca enfrentou. Investigações e ensaios internacionais sobre incêndio de veículo elétrico registram consumo na casa de dezenas de milhares de litros por veículo — uma ordem de grandeza acima do que se gasta num carro de combustão.

Um caminhão, contêiner ou vagão carregado de baterias multiplica esse número. É uma conta de logística de água, não de tática de bocal: significa suprimento contínuo, remanejamento de viaturas e, muitas vezes, decisão de defender exposições e deixar a carga queimar de forma controlada.

É aqui que a diferença entre a doutrina existente e a realidade brasileira aparece. O transporte já está normatizado — a Resolução ANTT 5.998/2022 no rodoviário, as Instruções de Embalagem 965 a 970 no aéreo, a Disposição Especial 188 no marítimo. A tática para a carga em chamas é que não está escrita em português.

A ocorrência não acaba quando a chama apaga

Três coisas continuam acontecendo depois do controle, e as três já causaram acidente com equipe:

  1. Reignição. Célula danificada mas ainda não disparada pode entrar em fuga térmica horas depois — há registro de reignição muito além do rescaldo convencional. Isso define uma doutrina de guarda pós-ocorrência com monitoramento térmico, que hoje quase nenhuma corporação brasileira formaliza. Câmera térmica no pacote, não a mão nas costas do compartimento.
  2. Gases tóxicos e inflamáveis. A decomposição do eletrólito libera, entre outros, fluoreto de hidrogênio — corrosivo e tóxico por inalação — além de monóxido de carbono e hidrocarbonetos inflamáveis. Proteção respiratória autônoma durante o combate e durante o rescaldo, que é quando a equipe costuma tirar a máscara.
  3. Efluente. A água que sai da ocorrência leva fluoreto, metais e produto de decomposição. Escoou para a boca de lobo, virou ocorrência ambiental. Contenção de efluente entra no plano desde o início, não no fim.

O que fazer no primeiro minuto

A sequência que a doutrina internacional sustenta, traduzida para a cena brasileira:

  1. Leia o documento e o painel antes do bocal. 3480/3481 e 3090/3091 mudam a tática. O número está no documento de transporte da carga.
  2. Isole com folga e mantenha a folga. Projeção de célula em chamas e possibilidade de explosão de vapor exigem distância maior que a intuição do combate a incêndio comum.
  3. Íon-lítio: água em volume, e continue depois de a chama sumir. O objetivo é temperatura da bateria, não chama visível.
  4. Lítio metálico: não improvise água. Isole, proteja exposições e trate como metal combustível.
  5. Proteção respiratória autônoma no combate e no rescaldo — o fluoreto de hidrogênio não avisa.
  6. Contenha o efluente desde o começo.
  7. Não libere a cena cedo. Guarda com monitoramento térmico; reignição é regra, não exceção.

Consulta rápida na ocorrência

As fichas dos números ONU citados aqui — com classe de risco, guia de emergência e distâncias de isolamento — estão na Biblioteca de substâncias do Portal, e a consulta por número ONU funciona offline na Emergência PP, para o caso de a ocorrência estar num trecho sem sinal.

O histórico brasileiro de ocorrências com essa e outras cargas está no Registro de Acidentes e no Boletim de Ocorrências, fechado por mês e região.