O critério que funciona em desabamento e falha em vazamento
Os métodos de triagem de múltiplas vítimas usados no Brasil partem quase todos do mesmo primeiro passo: peça em voz alta que quem consegue andar se dirija a um ponto determinado. Quem anda é verde, e o time concentra esforço nos que ficaram no chão.
Em desabamento, colisão ou incêndio, isso é excelente — separa em segundos a maioria que não precisa de intervenção imediata.
Sob contaminação química, o mesmo comando cria o problema. O verde que caminha está contaminado e está andando: ele vai até a ambulância, entra nela, chega à recepção do pronto-socorro e contamina o corredor, a equipe e os pacientes que já estavam lá. Foi assim que hospitais viraram cena secundária em incidentes químicos documentados no mundo inteiro — e é a razão de existir a orientação da OSHA para *first receivers*, o pessoal que recebe a vítima no hospital sem nunca ter ido à cena.
Ou seja: a triagem não deixa de existir. Ela deixa de ser um evento e vira dois.
Tria-se duas vezes: antes e depois do corredor
A doutrina internacional separa a triagem em dois momentos, com perguntas diferentes:
- Triagem de descontaminação (antes do corredor) — a pergunta não é "quem está mais grave", é "quem entra primeiro no corredor". Prioriza quem está contaminado e sintomático, quem tem contaminação visível de líquido, e quem não consegue se descontaminar sozinho. Aqui o ambulante não é dispensado: ele é encaminhado para a descontaminação em massa, que é rápida e feita em pé.
- Triagem clínica (depois do corredor) — a pergunta clássica volta: gravidade, prioridade de transporte, destino. Só que agora a vítima está descontaminada e pode entrar na ambulância e no hospital sem espalhar o agente.
Tirar a roupa é a medida que mais salva
O dado que reorganiza a prioridade de todo mundo: a simples remoção da roupa elimina a maior parte da contaminação — a orientação britânica de resposta operacional inicial, construída sobre essa evidência, resume o protocolo em três palavras repetidas, *Remove, Remove, Remove*: retire a pessoa do ambiente, retire a roupa, retire o agente da pele.
Isso tem consequência tática direta: o disrobe imediato vale mais que esperar a estrutura de descontaminação chegar. Uma equipe que gasta quinze minutos montando o corredor enquanto as vítimas continuam vestidas está perdendo o intervalo em que a intervenção é mais eficaz. Improvisar — cortar a roupa, usar a linha de mangueira em névoa, usar chuveiro de instalação próxima — supera esperar o ideal.
Duas cautelas que a doutrina impõe: privacidade e hipotermia. Água fria sobre pessoa despida, em quantidade e por minutos, produz hipotermia — o que a literatura de descontaminação em massa trata com faixa de água morna e com limite de tempo de exposição. E a recusa em se despir em público é motivo real de perda de eficácia; barreira visual improvisada é parte do procedimento, não luxo.
Toxíndrome: o critério que substitui a hipótese de agente
Na maioria das ocorrências, a identificação do produto chega depois das primeiras vítimas. A triagem não pode esperar por ela — e não precisa. O reconhecimento de toxíndrome, o conjunto de sinais que aponta a classe do agente, orienta prioridade e tratamento antes de qualquer nome:
- Colinérgica (organofosforado, agente neurotóxico): pupila puntiforme, salivação, lacrimejamento, broncorreia, fasciculação, incontinência. É a síndrome com antídoto disponível e tempo-crítico — vai para o topo da fila.
- Irritante / asfixiante pulmonar (cloro, amônia, fosgênio): tosse, estridor, dispneia, queimadura de via aérea superior. Atenção ao agente de baixa solubilidade, cujo quadro pode piorar horas depois — vítima que anda agora pode descompensar no corredor.
- Asfixiante sistêmico (cianeto, sulfeto de hidrogênio): rebaixamento súbito, convulsão, parada, com pele que pode não estar cianótica. Evolução em minutos.
- Corrosiva: lesão de pele e mucosa, dor imediata. Prioridade de irrigação abundante e precoce.
- Opioide: rebaixamento com depressão respiratória e pupila puntiforme — atenção à sobreposição com a síndrome colinérgica, que muda completamente o antídoto.
O que muda no seu POP
Resumo do que precisa estar escrito e hoje quase nunca está:
- Sob contaminação, "quem anda vai para o verde" deixa de valer — quem anda vai para a descontaminação.
- Tria-se duas vezes: para entrar no corredor e depois dele.
- Disrobe imediato, antes de a estrutura ideal chegar.
- Água morna e barreira visual — hipotermia e recusa são falhas previsíveis.
- Toxíndrome orienta prioridade enquanto a identificação não chega.
- Ninguém entra na ambulância sem descontaminar — e o hospital precisa ser avisado antes da primeira vítima chegar.
- Nenhuma vítima descontaminada volta à zona quente para buscar pertence.
Antídoto e retaguarda: o elo brasileiro frágil
Há um ponto em que o Brasil difere do cenário que a literatura internacional pressupõe. As diretrizes nacionais de indicação, uso e estoque de antídotos foram publicadas por sociedades brasileiras, e a rede de centros de informação toxicológica funciona — o Portal lista os telefones dos centros na seção de Emergência.
O que não existe em cadeia civil brasileira é o autoinjetor de atropina e pralidoxima, formato que a doutrina internacional pressupõe para atendimento de múltiplas vítimas colinérgicas fora do hospital. Planejar exercício de acidente com organofosforado assumindo autoinjetor disponível é planejar sobre recurso que a equipe não terá.
Para quem estrutura resposta institucional a esse tipo de cenário, o Portal mantém material técnico na área restrita QBRN, com acesso concedido a órgãos de defesa, segurança pública e resposta a emergências. Solicite acesso ou entre na área restrita.