O número e o que ele não diz
O acervo público do Portal chegou a 11.786 ocorrências com produtos perigosos, cobrindo de 1978 a 2026 — quase meio século. É, até onde sabemos, a maior série pública consolidada do país sobre o tema.
A distribuição por unidade da federação, porém, é o dado mais informativo de todos: 11.276 registros são de São Paulo. Cerca de 96%. O segundo colocado, Paraná, tem 176. O Rio Grande do Sul, 100. Ao todo, 21 unidades da federação aparecem — seis não aparecem nenhuma vez.
Nenhuma leitura séria desses números permite concluir que São Paulo tenha 64 vezes mais acidentes que o Paraná. O que eles medem, antes de qualquer outra coisa, é quem registra e publica.
Por que São Paulo domina a série
A resposta é institucional, não industrial. São Paulo tem, desde os anos 1980, um sistema estadual de atendimento e registro sistemático de emergências químicas, mantido pelo órgão ambiental e com série histórica pública e consultável.
Isso é raro. Na maior parte dos estados, a ocorrência com produto perigoso é atendida — por bombeiros, defesa civil, órgão ambiental, polícia rodoviária — mas o registro fica dentro de cada instituição, em formato próprio, sem consolidação estadual publicada, sem série temporal e sem acesso público estruturado.
O resultado é que o Brasil tem meio século de dado sobre um estado e quase nada sobre os outros vinte e seis. Não é que o dado não exista: ele existe fragmentado e não publicado, que para efeito de análise de risco é quase a mesma coisa.
A segunda lacuna: consequência quase nunca informada
Há um vazio ainda mais incômodo do que o geográfico. No acervo inteiro, a soma de vítimas fatais informadas é de apenas 3.
Isso não significa que ocorrências com produtos perigosos tenham matado três pessoas no Brasil em cinquenta anos. Significa que o campo de consequência humana quase nunca é preenchido nas fontes de origem: o registro documenta o evento — produto, local, tipo — e não acompanha o desfecho das pessoas envolvidas.
É uma distinção que precisa acompanhar qualquer uso desses números: ausência de dado não é ausência de vítima. É por isso que o Boletim de Ocorrências do Portal exibe esses campos como estão, sem estimar o que a fonte não informou — estimativa silenciosa é como um vazio vira um fato falso.
O que dá para fazer com um dado desse formato
Um acervo com essa distribuição não serve para tudo, mas serve muito bem para algumas coisas — desde que se saiba qual é qual.
- Serve para caracterizar padrão: quais produtos aparecem com mais frequência, que tipo de evento predomina, como a distribuição sazonal se comporta, que classes de risco concentram ocorrência. Isso se sustenta mesmo com viés geográfico, porque o padrão de produto e de modal é razoavelmente parecido entre estados industrializados.
- Serve como base de cenário para exercício: as ocorrências reais dão enredo mais verossímil que cenário inventado — vazamento em tanque, tombamento em rodovia, incêndio em armazém, com produtos que de fato circulam.
- Não serve para comparar estados. A diferença mede sistema de registro, não risco.
- Não serve para taxa de acidente por volume transportado, porque falta o denominador — não há série pública de volume por produto e por trecho.
- Não serve para estatística de letalidade, pelo motivo da seção anterior.
O que mudaria o quadro
Duas coisas, nenhuma delas cara:
Publicação consolidada por estado. Os dados já são coletados. O que falta é padronização mínima de campo e publicação periódica em formato aberto. O modelo paulista mostra que é viável e que o resultado se sustenta por décadas.
Registro de desfecho. Incluir vítimas e evacuados como campo obrigatório no registro de ocorrência transformaria a série de um inventário de eventos em uma base de análise de consequência — que é o que interessa a quem dimensiona resposta, define distância de isolamento e calcula seguro.
Enquanto isso não acontece, o acervo do Portal segue somando fonte por fonte, com o critério de que registro sem fonte rastreável não entra. As ocorrências estão organizadas mês a mês e por região no Boletim de Ocorrências, e o painel completo, com filtro por produto, classe, modal e período, está no Registro de Acidentes.