O produto: UN 1017
No sistema ONU, o cloro é UN 1017, classe 2.3 (gás tóxico) com riscos subsidiários 5.1 (oxidante) e 8 (corrosivo) — a tríade completa do mau elemento. Gás amarelo-esverdeado, 2,5 vezes mais denso que o ar: vaza e desce, acumulando em porões, valas e áreas baixas — exatamente onde alguém vai ser mandado olhar.
Os números da ficha NIOSH contam a história: limite recomendado (REL) de 0,5 ppm como teto, limite legal americano (PEL) de 1 ppm — e IDLH de 10 ppm, o patamar do escape imediato. Detalhe que salva: o nariz detecta cloro bem abaixo do perigo (décimos de ppm) — o odor é alarme, não dosímetro: sentiu, saia; não fique 'medindo' pela irritação.
O risco que mora ao lado
O cloro brasileiro do dia a dia não está na indústria química — está na ETA (estação de tratamento de água) do seu município, em cilindros de 68 kg e containers de ~900 kg. Os incidentes documentados são exatamente aí: falha de válvula que liberou um container inteiro numa ETA de Mato Grosso (deixando 180 mil pessoas sem abastecimento) e o vazamento em Mirandópolis/SP que levou operadores e transeuntes ao hospital.
E a referência mundial do pior cenário é ferroviária: Graniteville, EUA, 2005 — vagão-tanque rompido numa colisão, 9 mortos, ~554 atendidos, 5.400 evacuados por até duas semanas. É o acidente que toda mesa de planejamento de rota com cloro deveria estudar.
Os kits A, B e C: um para cada casa do cloro
Desde 1972 o Chlorine Institute mantém o CHLOREP — o plano de auxílio mútuo do cloro na América do Norte, com mais de 20 mil kits posicionados. O trio, cada um casado com um recipiente:
- Kit A — para cilindros de 45/68 kg (os das ETAs): dispositivos de vedação para vazamento na válvula, no plugue fusível e remendo para a parede do cilindro.
- Kit B — para containers de ~900 kg ("ton containers"): dispositivos para as válvulas e proteção dos plugues fusíveis.
- Kit C — para vagões-tanque e carretas: capuz de cúpula e dispositivos para as válvulas e o alívio de pressão do domo.
- A limitação que define o uso: os kits vedam vazamentos acessíveis, tipicamente em fase gasosa — recipiente rompido na fase líquida cheia é outro jogo, de especialista e transbordo.
- Kit sem treinamento é enfeite perigoso: o próprio Chlorine Institute condiciona o uso a pessoal treinado com proteção respiratória adequada (nível Technician para intervir), mantém vídeos oficiais e treinamento prático. No Brasil não há norma que obrigue o kit na instalação — é boa prática consagrada, com fornecedores nacionais e treinamentos como o da Sanepar com o Corpo de Bombeiros do Paraná (2026).
A resposta: distâncias oficiais e a regra de ouro da água
O cloro cai no guia 124 do ERG 2024, e a tabela oficial de isolamento (confirmada na base CAMEO/NOAA) é assim: vazamento pequeno — isole ~60 m e proteja ~300 m vento abaixo de dia, ~1,4 km à noite (o triplo noturno é típico de gás tóxico denso). Vazamento grande, por recipiente: cilindros ~150 m de isolamento; múltiplos containers ~300 m; carreta ~600 m com proteção até ~6 km à noite; vagão ferroviário ~900 m com proteção que passa de 11 km em noite calma. Incêndio envolvendo o tanque: 800 m em todas as direções.
E a regra de ouro: água nunca no ponto de vazamento — cloro + água = ácidos clorídrico e hipocloroso, que corroem e alargam o furo. Neblina d'água serve para abater a nuvem à distância, sempre evitando que o escoamento chegue ao recipiente. A prática clássica de posicionar o recipiente para o vazamento sair em fase gasosa (menor vazão que a líquida) é decisão do técnico treinado — nunca do primeiro no local, cujo papel continua sendo o de sempre: reconhecer, afastar, isolar, notificar.
Quem atende no Brasil
Acionamento: 193 (bombeiros) e o Pró-Química (0800 110 8270), a central química 24h que os fabricantes e transportadores de cloro do país usam — detalhes na seção Pró-Química do portal. Nos polos e no saneamento, os PAMs locais somam gente e kit; a indústria cloro-soda (representada pela ABICLOR) mantém as equipes de fábrica.
Para o operador de ETA, o resumo executivo: conheça o kit do seu recipiente pelo nome, treine antes de precisar, e tenha a ficha do UN 1017 — riscos, isolamento, EPI e os dados NIOSH — a um toque na Emergência PP, funcionando sem sinal de celular. A ficha completa da substância está na Biblioteca.